quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Ilhas desertas



As ilhas desertas retêm a tarde no voo da gaivota

e o lamento das ondas nos corais.

Nas saias da noite refletem cidades celestes e

dançam cirandas com algas e estrelas-do-mar.  

Ilhas desertas - Madeira - Portugal - Rui Gonçalves da Silva
 As ilhas distantes não refletem a luz de led,
retêm constelações e horas intermináveis de beleza.

Um saveiro azul

me leva a visitá-las sempre que o  sono não vem.

Ilhas longínquas sonham saudades 
de mares distantes a navegar.

sábado, 4 de novembro de 2017

Um breve conto de amor



Um breve conto de amor



Era novidade. No pequeno vilarejo, todos queriam ver e falar da bela moça  que chegara de trem ao entardecer.

Seu vestido longo e vermelho lembrava uma pintura rupestre.  Rendas escondiam seu colo alvo, macio, exuberante.

Luvas curtas deixavam parte dos punhos à mostra e seu rosto, escondido pelo véu transparente do chapéu claro lembrava um Modigliani; alongado, olhos rasgados, tez clara.

Passeava pela cidade com a desenvoltura de quem sabia a que viera.

Sua bagagem de mão, uma pequena frasqueira em couro prateada, com certeza guardava o frasco do  suave perfume que exalava de seu corpo por onde passava.

A passante de Charles Baudelaire talvez se aproximasse dela com naturalidade, mas as mulheres e moças do vilarejo não se continham em fofocas e maledicências.

Na hospedagem, a mulher se identificou e pediu para ocupar o quarto 32. Pediu uma ligação local e logo um cavalheiro vestido de preto, com chapéu vitoriano apareceu na recepção.

A mulher correu ao seu encontro e se abraçaram como se fosse a última coisa que fariam na vida.

Passaram a noite no quarto 32 da hospedaria.

De manhã, o homem pediu nova  ligação. 
Um Ford preto do final do século  XIX, muito bem conservado veio  para conduzir o misterioso casal. O chofer elegante cumprimentou a bela mulher que aguardava,  sentada em uma velha poltrona. Sua delicadeza e seu vestido vermelho contrastavam  com o fundo escuro do couro; de seu rosto, coberto pelo véu,  irradiava  uma luz intensa

A conta foi acertada pelo cavalheiro de chapéu vitoriano e partiram em seguida.

A senhoria  correu a chamar a  camareira para irem ao quarto onde se hospedaram os amantes.

Encontraram sobre a cama perfumada  apenas uma pluma do chapéu e um bilhete que dizia:

“Vocês são os mesmos que aqui ficaram quando parti aos quinze anos, aves necrófagas que sobrevoam sobre as  múmias de suas maldosas crenças e preconceitos.Neste quarto me hospedei quando parti pobre e melancólica. Muito chorei e aqui não mais voltarei."

Um perfume suave, misturado ao cheiro do amor da noite entorpeceu as duas mulheres que caíram ao chão,  desmaiadas, uma com o bilhete na mão, a outra com a pluma do chapéu sobre o coração. 
Horas mais tarde, toda a cidade ficou sabendo do ocorrido.  

        Imagem : Fonte: Blog Memória Vintage.

         

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Conversa com meu Anjo

    
                                   Fra Angélico (1395 - 1455 ) - pintor da fase inicial do Renascimento.


Conversa com meu Anjo



Para começar, sei como você é, meu Anjo.

Um Ser de Luz, de beleza indescritível, presença protetora e amigável; ri e chora comigo, sabe se estou triste ou alegre.

E me escuta, por isso falo com você tão natural e facilmente.

Conheço-o desde que nasci e você me conhece desde muito antes. Ensinou-me a lidar com os seus mistérios, porque sem eles, Anjo nenhum existiria.

É quando estou no mais alto ou no mais baixo das minhas dimensões humanas que mais preciso de sua proteção, de seus braços de Anjo abertos para mim, de suas mãos seguras e firmes a me guiar. No mais fundo dos abismos ou no mais alto dos céus da minha condição humana, na subida e na descida das emoções e afetos que mais fico vulnerável e necessito de sua Presença.  Não sei andar sozinha, preciso muito de você, meu Guia.

Suplico que seu olhar divino e iluminado me olhe para que os olhares humanos sejam compreendidos e deles eu não fuja, pois também meus olhares são demasiadamente humanos.

Acompanhe-me em minha jornada terrena, seja ela longa ou breve. E depois, ah,  depois, quem sabe?

É sempre no agora que preciso de você, e aqui.

Espero por você, meu Anjo, agora, agorinha mesmo...

Amém!

"Ela acreditava em anjos e, porque acreditava, eles existiam." (Clarice Lispector)
 
 




quinta-feira, 23 de março de 2017

Sonhos estelares

                                              

                                                                                                   


                                         
                                                            Bordado em cetim e pérolas sobre fundo
                                                            de algodão cru.
                                                            Moldura em renda de seda.
                                                           - Regina Gaiotto

                                                          

                                         Caiu do firmamento uma estrela.
                                         Num piscar de olhos
                                         chocou-se com o oceano,
                                         foi parar junto aos que habitam
                                         as águas frias de sal.

                                        Um cavalo-marinho
                                        engravidou-se de estelares desejos
                                        e num piscar de cores
                                        deu à estrela presentes
                                        lilases, laranjas, turquesas.

                                       No castelo de corais,
                                        a maga das profundezas
                                        fez com que ele parisse
                                       a mais bela estrela-do-mar.
                              

sábado, 12 de novembro de 2016

Tempo pretérito

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Foto: Casarão da Mamma e sobrado conjugado
         Pintura em porcelana  por Rosa Maria Gaiotto Fonseca
         Criação original; Dina Gayotto Carneiro da Cunha



Escrevo do pretérito, fugas do tempo presente, portos de onde as embarcações se lançam ao futuro e as bagagens se extraviam em cada um deles. Tudo parece vir de tempos idos, das mochilas que lancei aos mares por onde viajei com a vida.      
Uma casa de varanda e um sobrado a ela conjugado abriram suas portas e janelas para a poesia da lembrança;  de lá,  a argila da saudade moldou em mim a permanência de tudo o que a ilusão parece modificar.
Mas não, essa persona que é do passado, vive flexionada à casa, ao sobrado, à Mamma, minha avó paterna e aos inquietos  meninos e meninas, netos  que ela acolhia em seu imenso quintal.
Da fresca varanda que ficava a alguns degraus das brincadeiras,  com a agudeza do seu olhar de águia,  perspicaz e penetrante, a nona nos vigiava.  Quantos éramos? Muitos! Tantos, que ela não mais conseguia assossegar.
Durante os meses de julho, dezembro e janeiro, o quintal ficava ainda mais animado com os primos, netos e bisnetos que vinham de longe.
O olhar da nossa avó oscilava entre ternura e austeridade;  haja energia e foco para conter  o desassossego de tantas crianças! E ela foi mestra no quesito.  Do seu rosto emoldurado por caprichosos coques presos em preciosos pentes italianos,  surgiam expressões de bondade e braveza. Mamma sabia assossegar crianças apenas com o olhar.
Da sacada do sobrado, tios carinhosos nos advertiam
dos perigos: subir em altas árvores, boiar nas enxurradas
comer dos frutos ainda verdes, caçar aranhas e perder-se em montes de areia, travessuras naturais que,
se comparadas às dos  meninos de agora, dá uma pena doída por não poderem desfrutar com liberdade das venturas que a natureza oferece. Tudo tão mais perigoso, nos dias atuais do que saltar dos altos galhos dos pés de jambolão que iam além do quintal da Mamma.
Tão doce era o canto que de longe se ouvia quando o vento batia nas frondosas copas das árvores do quintal,  que a vida juntou em nós  sua equação, teorema e poesia, como fez Casimiro de Abreu com seu menino de oito anos, em seus versos mais eloquentes sobre pretéritos que os anos não trazem mais.